O Homem conhece o mundo e o vivencia através
dos órgãos dos sentidos externos. Pode-se dizer que o corpo sente o mundo e o mundo deixa impressões
no corpo – as sensações.
A sensorialidade física impulsiona o homem a se
colocar diante do mundo – primeiro como predicado, aquele que sente e é
atingido pelo mundo. Depois, como sujeito da ação.
Nesse instante, a sensação sentida
transforma-se em emoção percebida.
Diante do mundo, sentindo o mundo e sua ação
sobre ele, o homem percebe a relação entre a ação do mundo sobre ele e o seu
sentir em relação à ação do mundo sobre si – o que é bom e agradável ou o
impulsiona a fugir, o que é confortável, aconchegante ou amedrontador, o que
lhe dá prazer ou insegurança.
O impulso seguinte é o desejar . Desejar sentir o mundo da maneira que o apraz. Nasce aqui
o primeiro sentido interno – o querer.
Mas o mundo não oferece ao homem somente as
sensações desejadas, então, em um ímpeto de proporcionar a si mesmo as
condições ao seu próprio bem estar o homem passa a fazer – o segundo sentido interno.
Assim o homem, munido de sua sensorialidade e
emocionalmente movido pela busca de seu bem estar começa a interferir no mundo,
a criar condições para que o mundo seja de acordo com o seu recém nascido
desejo. O sentido, o novo sentido para transformar o mundo ao seu bem querer é
a vontade.
O instinto foi sua primeira ferramenta. O saber
herdado de seus antepassados, o saber biológico gravado em sua memória celular
proporcionou sua existência no mundo. Essa existência lhe proporcionou conhecer
o mundo e a si mesmo em relação a ele. Sentir, perceber, desejar, fazer.
A vontade nasce da interação interna entre o
homem e o mundo. É a qualidade dessa interação interna que dará ao homem o seu
sentido de capacidade de interferir no mundo. Nasce então o pensar o mundo. O homem vê a si mesmo
como capaz de criar condições de
existência .
Ao pensar o mundo o homem desenvolve um novo
sentido interno – a mente, analítica
e concreta e em posse desse sentido o homem cria. Analítica e concretamente o
homem cria no mundo o seu sentir, munido de seu querer e de seu fazer, movido
por emoções e desejos e tendo como alavanca de ação a sua vontade.
O conhecimento humano, toda sorte de
filosofias, cálculos e soluções estão alicerçados na sua descrição do mundo.
Toda a intervenção humana no mundo tem como base a sua descrição do mundo.
Em posse de sua capacidade mental concreta
nasce no homem um novo sentir – o apego.
O primeiro sentir
referia-se a lutar ou fugir, gostar ou não gostar. Um sentir alicerçado em
sua sensorialidade e emoções. Nascidas da sua própria existência no mundo e da
necessidade de existir no mundo. Referia-se a ser e continuar sendo, viver e
sobreviver.
Agora, com sua capacidade de criar no mundo as
suas próprias e necessárias condições de existência e empregando a sua vontade,
o homem é capaz de manter o mundo da maneira mais apropriada para si mesmo,
para as suas condições pessoais de existência, internas e externas.
Sentindo o mundo o homem o avalia.
Avaliando o mundo o homem o quer.
Querendo o mundo o homem o julga.
Julgando o mundo o homem o cria.
Criando o mundo o homem pesa a si mesmo diante
do mundo.
Olhando a sua interferência no mundo,
analisando sua interferência e sua relação com e no mundo, o homem abstrai e o abstrato o leva de volta – a
pensar o mundo de uma maneira diferente.
Esse novo pensar o mundo, esse derramar-se
sobre o que é abstrato, não cognoscível pelo pensar analítico e concreto, leva
o homem a adquirir mais uma ferramenta interna – o pensar abstrato, um novo
estado de mente.
O alicerce dessa mente recém nascida também é o
instinto. O instinto do saber.
Formado pela somatória de todas as formas de interação entre o homem e o mundo.
Atual e passado. Herança cultural herdada e transmitida.
Ao pensar o mundo, racional e abstratamente, o
homem o percebe imenso, incomensurável. Percebe a sua inserção no mundo e a
mede.
Julgando o mundo o homem cria.
Criando, o homem pondera.
Ponderando, o homem mede.
Em posse das medidas do mundo o homem infere.
Ao inferir, o homem divide.
Ao dividir o homem prospera.
Prosperando, ele age.
Agindo, ele cansa.
Cansado, ele pensa
E pondera.
As inferências, as ações do homem sobre o
abstrato do mundo criam nele o movimento.
Agora o homem não é só o agente da ação que, com suas ferramentas transforma o
mundo, molda o mundo de acordo com suas necessidades, sentires e quereres.
Agora o homem se move. Ele entra e sai do abstrato e realiza no concreto o
fruto do seu pensar, raciocinar, analisar e ponderar. Agora ele realiza no
mundo, age, cria e transforma, movido por suas inferências.
Um novo sentido nasceu – a realização. Realizar é algo além de fazer, de criar. Ele é
impulsionado a realizar o certo. A
fazer e criar o certo.
Agora o homem tem em seu poder a volição.
Conhecendo (inferindo) o tamanho do mundo ele
sai da órbita de seu próprio umbigo e vê a si mesmo como pertencente ao mundo,
inserido num contexto maior do que si mesmo e suas necessidades pessoais,
internas e gregárias.
Ao inferir sobre o mundo o homem o divide.
Particiona.
Ao particionar o mundo o homem o estuda,
concreta e abstratamente.
Ao estudar o mundo ele se apercebe de si mesmo. E o homem insere-se no mundo. Não mais de
forma reativa. Conscientemente.
Nesse ponto, munido de seu instinto de saber,
podendo não só transformar o mundo mas também se movimentar por ele, o homem
descreve novas órbitas de ação. Órbitas essas que abrangem suas ações passadas
e presentes e seus anseios futuros.
Ao inferir o mundo o homem o divide,
O estuda,
O conhece.
O mundo volta a ser inteiro, conhecido e
alcançável.
Tendo pensado o mundo o homem novamente o
descreve. Em posse dessa nova descrição de mundo (não mais reativa) e, tendo a
si mesmo inserido nesse contexto (de totalidade entre ele e o mundo), o homem
se põe em movimento. Ele é capaz de perceber a si mesmo no mundo e com o mundo,
buscando soluções, questionando o mundo, agindo, pensando, descansando.
Agora o mundo é um. Estático, concreto. O homem
é multidisciplinar, multi tarefas. Ele pensa, sente, pondera e reage. Ele faz e
cria. Inserido no tempo e na espacialidade do mundo e de si mesmo.
A intuição,
seu mais recente instinto de saber, nascida de suas inferências e ponderações
sobre o abstrato, o incognoscível e o incomensurável, coloca o homem diante de
potenciais inexplorados, de potencialidades e possibilidades infinitas. E o
homem quebra as barreiras do concreto, do analisável, do mensurável. O conhecer o mundo se torna oceânico,
planetário. Como o mundo já havia sido medido, pesado, e ponderado o homem,
então, novamente, se põe diante dele. O incomensurável mundo e ele mesmo.
Novamente o homem se põe diante de si mesmo.
O homem e o mundo.
O mundo e o homem.
A movimentação do homem, impulsionada por seus
instintos, o leva a, inserido no mundo, buscar ser. Ser, para o homem, é realizar seus potenciais inexplorados.
Nesse ponto o homem e seu saber se tornam um.
Ele reconhece o alcance de suas ações, o alcance de suas interferências no
mundo. O saber agora é conhecimento e o homem, consciente; ainda é agente de
ação mas a ação extrapolou a órbita de si mesmo; alcançou as esferas do saber e
juntos, derrubaram as fronteiras que separavam o homem de si mesmo, dos outros
seres e do mundo.
Ser. Ter. Fazer. Querer. Ser.
Saber. Fazer. Querer. Ser.
Saber fazer. Fazer. Ser.
Querer ser. Ser. Sou.
O movimentar-se
no mundo – os passos da dança do homem no mundo, através do mundo e de si
mesmo. Agora o homem acessa o mundo dentro dele. Alcança mais um saber. Saber
dentro de si – o que o mundo fez a ele enquanto ele reagia ao que o mundo fazia
com ele. Tendo medido o mundo o homem o mensurou e o conheceu. Conhecendo o
mundo o homem mensurou a si mesmo. E a cada ciclo dessa dança uma nova
descrição de mundo o homem alcançava.
O homem.
O mundo.
O Tempo.
O Espaço.
A dança da ação e da interação,
do homem no mundo,
do mundo no homem.
O compasso marcado pela interação de ambos, um
com o outro, o outro com o um.
Agora o homem olha para si mesmo e olha para o
mundo. Novamente um diante do outro, medindo e ponderando, inferindo e
sentindo. O homem vê o que passou consigo, com o mundo e o que um interferiu no
outro, para o outro, apesar do outro.
Nessa medição alternada, entre o homem e o
mundo, alternados foram os instrumentos dessa medição:
o instinto
básico, de preservar-se e manter-se – que lhe proporcionaram estar e
permanecer no mundo,
os sentidos externos, sua sensorialidade - que lhe possibilitou descrever o mundo e agir nele
através do sentir ;
os sentidos internos, seu instinto de saber (concreto e abstrato) – que o levou a criar no
mundo, com o mundo, para si e para o mundo.
E o homem despertou para a matemática da ação. Somando-se, o homem subtraia o mundo. Reativo.
Excludente. Somando o mundo ele percebia a si mesmo como tendo sido subtraído
de seus potenciais inexplorados.
O homem,
O mundo.
O tempo.
O homem, o mundo,
O espaço.
O mundo, a matemática do mundo;
Somar e subtrair, dividir e multiplicar – a
dança cíclica do compasso do homem no mundo.
Contemplando os passos dessa dança, marcando o
compasso de sua movimentação ativa, consciente, ele percebe então espaços
vazios. Um breve silêncio entre um passo e outro, entre um compasso e o
seguinte. E o homem para. Silencia no exato instante do silêncio do mundo. E
nasce assim a consciência que, por
ausência de parâmetros comparativos, reativos ou analíticos, o homem chama de meta, de extra – o saber que advém de algo muito distante do conhecimento
que ele tem de si e do mundo. O vazio e o silêncio dão ao homem um novo sentido
– além da ação. Ele agora é capaz de elaborar
. Elaborar seus conteúdos internos e sua ação no mundo sem confrontá-los com o
mundo e é capaz de elaborar sua relação com o mundo sem sentir-se confrontado
por ele.
A reação do homem ao mundo gerou a ação,
A ação do homem no mundo gerou conhecimento,
O conhecimento gerou ação;
Esta gerou valores
Estes geraram ações matemáticas, cálculos e
ponderações
O cálculo gerou conhecimento
Este gerou saber
O saber uniu o que o instinto dividiu
A união gerou silêncio, vazio
O vazio gerou a consciência
Pela primeira vez o homem entra em fase com o
mundo. Sem polaridade. Não ação. Não ser.
Não reativo, não ativo.
Positivo – em fase com o mundo.
Ser no mundo
Fazer no mundo
Querer o mundo
Sentir o mundo
Estar inserido no mundo como criador – na ação
E criatura – na não ação
Ser total na totalidade do mundo, agora
descrevendo uma dança a dois.
Aceitação – o seu mais novo
sentido na sua inter-relação com o mundo.
Nesse movimento em busca de sua realização no
mundo e com o mundo o homem derruba as fronteiras da sua psicologia interna –
ao deixar de ser reativo, no vazio e em silêncio, ele finalmente unifica o seu
conteúdo interno, feito de sentires e quereres e, encontra dentro de si mesmo a
harmonia dessa dança entre ele e o
mundo. O homem reconhece essa harmonia interna como sendo o seu espírito
imortal e o reconhece como tendo sido o seu espírito primeiro, o que sempre o
instigou, sempre o impulsionou a agir, a querer estar no mundo, com o mundo e
realizar suas ações no mundo como sujeito de ação.
Agora o homem diz: Eu Sou e o seu saber é de
que ele é um com o espírito. Esse é o resultado de suas investidas desde que seus
pés tocaram o abstrato.
O homem, investido em seu espírito (um
extra-homem, meta-humano) e, de posse de suas ferramentas internas e externas
coloca-se novamente diante do mundo e o mundo se coloca diante dele. Dois seres
trocando um olhar incomensurável, incognoscível, atemporal. O homem vê o mundo
– o mundo é novo aos seus olhos. O mundo vê o homem – o homem é novo.
Diante do mundo o homem vê o mundo e o mundo é
novo pois nova é a sua descrição de mundo. Nova é a sua capacidade de agir sem
interferir. Nova é sua capacidade de elaborar – sem criar o oposto, sem atrito.
Mas novo também é o compasso dessa nova dança – o compasso includente. Agora o
homem se encontra com acesso ao seu potencial de infinitas possibilidades e tem
acesso às infinitas possibilidades do mundo. E o homem tem agora um novo
sentido de saber – a escolha. Ele é
capaz de escolher agir em infinitas possibilidades. De sentir em infinitas
proposições. De buscar em infinitas fontes. De querer, de não querer, de parar,
continuar, fazer e não fazer. As infinitas possibilidades se estendem ao
infinito, para além da matemática e dos cálculos possíveis. Agora o extra-homem
tem a escolha, a proposição de estar com o mundo – sua aceitação e harmonia lhe
permite conversar com o mundo, considerar
a si mesmo sócio do mundo, um meta humano –
capaz de compartilhar suas infinitas possibilidades com as ilimitadas
possibilidades do mundo. Essa sinergia
entre o homem e o mundo, a total aceitação dos ditames de um e do outro estão a
criar a uma nova psicologia – o inter relacionamento do homem em sociedade com
o mundo e um novo campo do saber – o conhecimento gerado pelos saberes de um em
sociedade com o outro.
v
Vilma dos Santos de
Oliveira
A Toca, 25 e 26 de
Fevereiro de 2.015DC.
Tatuí, São Paulo.

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Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”
- Antoine de Saint-Exupéry
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